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    Mãe!

    Mãe!

    5/2/2025

    Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!


    Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!

    Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!


    Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!


    Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!

    Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

    Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.

    Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado.

    Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,

    tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.


    Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!

    Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.

    Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.


    Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!


    Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


    José de Almada Negreiros

    A invenção do dia claro

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