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Direitos humanos – Para quando uma realidade?
2/3/2020
Às vezes, pergunto-me se sou humano. Mas, sim, sou. Estou vivo, o sangue corre-me nas veias, o coração bate, penso e tenho sentimentos. Porém, neste sítio do mundo onde vivo não sinto que me tratem com a dignidade que mereço…
«Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.» (Artigo 1.º, Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH))
Muitos olham para mim como se a minha raça fosse a de um ser inferior, destinado a ser explorado, porque destituído de inteligência…
«[…] sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo.» (Art. 2.º)
[…] a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas são proibidos.» (Art. 4.º)
Bastou a minha cor para que desconfiassem de mim e me julgassem culpado daquele crime. Estava no local errado à hora errada…
«Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido […]» (Art. 9.º)
A minha família não me deixa casar com a pessoa que amo porque pertence a outra religião. Estou presa em casa, à mercê da vontade do meu pai, até que ele encontre o marido certo para mim…
«A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião.» (Art. 16.º)
Só tenho 12 anos. Caso amanhã. Não conheço o meu noivo. Tem 45 anos…
«O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos.» (Art. 16.º)
Não concordo com as orientações políticas do meu país. Sempre que tenho oportunidade, tento manifestar as minhas opiniões e levar comigo outros que também estão descontentes. Prendem-nos, perseguem-nos, espancam-nos…
«Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão […]» (Art. 19.º)
Trabalho tanto, mais do que muitos dos que estão a meu lado. Mas, sou mulher. Ganho menos, muito menos. Não consigo sustentar a minha família…
«Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana […]» (Art. 23.º)
Gostava tanto de aprender coisas novas: línguas, história, matemática, artes. Mas, neste país, não mo permitem. Sou menina…
«Toda a pessoa tem direito à educação.» (Art. 26.º)
São direitos, são universais, são inalienáveis, são não discriminatórios, são invioláveis. E, contudo, eis aqui o nosso mundo, triste, injusto, tendencioso, parcial, racista, discriminatório, explorador…
Eis aqui uma Declaração Universal dos Direitos Humanos com 75 anos e ainda por cumprir. Quantos mais serão necessários?
Por Carla Marques