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    Avaliação em tempos de pandemia

    Avaliação em tempos de pandemia

    2/24/2021

    Uma escola amiga não é, por inerência, uma escola “boazinha”. Por isso mesmo, entende que a aprendizagem precisa da avaliação. Para quem aprende. E para quem ensina. E sabe que quanto mais justa ela for, melhor a escola cumpre a sua função.

    Uma escola amiga sabe, também, que reduzir a aprendizagem a um número não nos pode levar a concluir que esse valor é objetivo. Conclusivo. Quase irrefutável. Até porque esse número classifica, quase sempre, o desempenho do aluno quando isso depende, também, de muitos outros fatores. Como, por exemplo, do desempenho do professor ou da “química” que se criou com ele. Da escolaridade dos pais. Ou das carências de conhecimentos que, antes, se acumularam. As notas dão-nos uma ideia dos recursos de um aluno. Mas nem sempre melhores notas significam mais conhecimento. Ou mais inteligência!

    É verdade, também, que a escola se deixou enredar numa confusão muito perigosa, associando melhores notas a mais conhecimento. Ora, muitas notas não têm, unicamente, a ver com o conhecimento “articulado” por um aluno quando trabalha determinados conteúdos. Estudar para um teste e aprender, de facto, não são, muitas vezes, a mesma coisa. E, depois, as notas também representam o “trabalho de uma equipa” - que inclui pais e explicadores - que, queiramos ou não, dão a esse número final um valor muito mais relativo. E que, alimentado dessa maneira, leva ao engano.

    E é verdade, ainda, que - por estratégias de marketing e etc. - as notas são, muitas vezes, “puxadas para cima”. Quem ganha com isso? Ninguém. A não ser a criação de uma ideia - enganosa – de os nossos filhos serem tão inteligentes como as notas que eles têm, supostamente, “medem”.

    Para complicar mais a relação da avaliação com a aprendizagem, os nossos filhos estão em teletrabalho. Não há volta a dar. Mas isso torna a avaliação muito mais escorregadia. Não há câmaras ligadas num computador que assegurem que os resultados das suas avaliações corresponderão ao que eles sabem. Porque, muitas vezes, notas em teletrabalho poderão transformar-se em “trabalho de grupo”. Ou refletir um “copianço digital”. Ou levar a demasiadas “ajudas” (?) dos pais, por exemplo. No final, o número “está lá”. Mas os riscos de representar menos ainda do que já representavam aumentam. Muito!

    É, também, por isso que uma escola amiga tem já de se preparar para “o dia a seguir” ao desconfinamento. Vamos aceitar estas notas como valores objetivos? Vamos assumir que os nossos filhos precisam de fatores de ponderação nas classificações que, entretanto, tiveram que ajudem a repor a verdade nos seus conhecimentos - para sua proteção -, pensando naquilo que essas notas têm de indispensável, para eles? Vamos pedir-lhes “provas intercalares” para termos uma ideia do que eles, verdadeiramente, sabem? Vamos aproveitar tudo isto e repensar a avaliação? Vamos dar outros instrumentos de avaliação aos professores para que eles cumpram a sua missão com o rigor que a avaliação agradece? Aquilo que se exige aos professores - a propósito da avaliação em tempo de pandemia e com as crianças em teletrabalho - é ainda mais difícil. Porque, por mais que queiram introduzir ponderações que façam da avaliação um exercício sensato, terão sempre quem lhes lembre que um número é um número. Logo...

    A avaliação em tempos de pandemia não tem como ser uma avaliação “normal”. Não se reconvertem práticas de avaliação de muitos anos de um dia para o outro. Dir-me-ão que nem só de testes individuais vive a avaliação. E é verdade que não. Mas, vezes demais, eles desempenham a coluna vertebral da avaliação. E num contexto de teletrabalho como este, já não é só a existência (ou não) de aulas, as assimetrias que elas acabam por ter, a sua forma e os seus conteúdos que estão em questão. O que, já de si, faz com que a escola (independentemente do esforço heroico de todos) não seja a escola que desejaríamos que ela fosse. A avaliação em tempo de pandemia é só mais um pormenor (porventura, o mais importante) que nos deve obrigar - a todos - a ponderar que verdade se coloca em cada nota que se atribui. Sob pena de termos alunos bem classificados - mas grande parte deles com notas mais altas do que tinham antes da pandemia. E conhecimentos cada vez frágeis. Sobretudo se os tomarmos aos olhos daquilo que eles precisam para aprenderem mais. E melhor.

    Assusta-me, finalmente, que possa haver pais e responsáveis pelo sistema educativo que, considerando os resultados escolares em pandemia, considerem que “tudo funcionou”. E, centrados nas subidas de notas de muitos alunos, suponham que os confinamentos possam ter sido um fator amigo da aprendizagem. Quando, no fundo, se for assim, estaremos a falar de um perigo como se ele fosse um raio de sol. E aí todos merecemos “má nota”.


    Por Eduardo Sá

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